Cyril Connolly
Sunday, February 18, 2007
Teus olhos entristecem...
Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham, esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca me ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que nasce ocioso
Sumir de tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa
Desprezo
Amigo,
Palavra esquecida hoje em dia,
Palavra riscada do dicionário
Da vida do mundo de hoje!
Que foi feita de ti, palavra?
Que significas tu?
Não, não compreendo o porquê
Do teu desaparecimento da sociedade.
Ainda há uns anos atrás,
Tempos de meus avós,
Eras amada e respeitada, palavra!
E hoje? se não correram as moedas
Pelos dedos hábeis dos supostos
Senhores de tudo isto, nada és...
Eras amada e respeitada, palavra!...
Invocam-te no crime e no pecado
E já é uso ouvir dizer-se:
- Apareceu morto, coitado,
Foi o amigo...
Foi ontem roubado, pelo amigo...
Que desprezada estás, palavra!
Enriqueceste apenas nisto:
Tens hoje em dia
Mil e um significados!...
Fernando da Silva Campos
Porto - 1969
Num dia de tédio
Junto ao mar eu fui saber,
Ouvindo águas gemendo,
O que significa viver
Que é coisa que eu não entendo.
A areia quente amarela,
Quando o mar então gemia,
Foi cantando a vida dela,
Tudo por quanto sofria.
Ouvi-a com atenção
E dei-lhe razão no fim.
Abri o meu coração
E então falei-lhe assim:
Não sei o que é esta vida
E é tão difícil saber
Se uma vida já perdida
Voltará a renascer!...
A vida a mim me parece
Uma jornada sem fim,
Uma coisa que carece
D'algo p'ra vir até mim.
Olho a vida como um horto
Cheio de desolução,
Um corpo de homem morto
Entrando em corrupçao.
Como castelos na areia
Alegria das crianças
Mas que vindo a maré cheia
O mar derruba sem lanças.
Castelos ocos da vida
Sem soldados guardiões.
A vida p'ra mim, a vida
É um castelo de ilusões.
Já o mar se revoltara
Em ondas de uma porcela
E à'reia se calara
Aguentando a vida dela.
O tédio me possuía
Ao pensar eu como viver
Mas vi que à'reia vivia
Sem deixar de mui sofrer.
Pus-me então a meditar
E vim depois a saber
Que p'rá vida se passar
Importa saber viver.
Fernando da Silva Campos
Porto - 1970
Saturday, February 17, 2007
O meu amor
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos
Lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu?
E ele é meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz
Meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca
Com a barba mal feita
E de posar as coxas
Entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
Me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu?
E ele é meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz
Maria Bethânia
Composição: Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
(Se isto não é o Amor, então não sei o que seja...)
Fly me to the moon
Fly me to the moon
Let me play amoung the stars
Let me see what spring is like
On jupiter and mars
In other words, hold my hand
In other words, baby kiss me
Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words,
I love you
Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words
In other wordsss, I love you
Frank Sinatra
Composição: Bart Howard
Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro
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